Quatro Razões para Cancelar o LinkedIn
e a Karen das Frases Motivacionais
Nesta série de crónicas, começo por traduzir textos que publiquei na minha newsletter em inglês, The Wordsmithery .
A crónica que agora apresento foi publicada a 2 de novembro de 2024 e intitula-se Four Reasons to Tell LinkedIn to Piss Off .
Se estás aqui para uma leitura leve e tranquila, prepara-te para seres surpreendido. Subscreve à newsletter para mais doses generosas deste género — porque a vida já é demasiado aborrecida sem sarcasmo.
E claro, se conheces alguém que precise urgentemente de uma boa dose de ironia, partilha este texto. Prometo que não chateio... muito.
Debate
O texto de hoje é sobre a “essencial” arte de filtrar o que consumimos nas redes sociais, especialmente no LinkedIn — porque, claro, todos precisamos de mais filtros na vida.
Surpreendentemente, há uma multidão de adolescentes e adultos socialmente exaustos graças a estas “fantásticas” plataformas. O perfeccionismo tornou-se o novo mandamento dos media — mas para quê alimentar essa ilusão? Devíamos cuidar da nossa saúde mental com a mesma atenção que damos à comida ou à higiene pessoal.
Quatro Razões para Cancelar o LinkedIn
Não sou fã do LinkedIn — e acho que isso ficou claro a partir do momento em que leste o título. Ainda assim, há quem o venere como se fosse a tábua dos Dez Mandamentos passada a PowerPoint. Respeito essas pessoas. Quer dizer, tento. Ok, não muito. A verdade é que, o que lhes acende a chamazinha corporativa, é precisamente aquilo que me dá vontade de mudar o estado do Teams para “Não Incomodar”.
Antes de começar esta catarse, queria pôr os pontos nos is: não sou do contra só por desporto (apesar de parecer um excelentíssimo desporto). Quando digo “não sou fã de…”, é porque há ali um cheiro a podre que me faz torcer o nariz. E sim, espero que respeitem a minha liberdade de expressão — mesmo que isso provoque comichões nos devotos do algoritmo e nos paladinos do networking forçado.
Posto isto, o LinkedIn é, para mim, a maior peça de ficção social do nosso tempo.
Uma Netflix da vida real — sem o orçamento — onde o talento e a falta de vergonha na cara imperam.
As pessoas não sabem viver em comunidade, ponto. Talvez porque a sociedade moderna seja como aquele saco do lixo orgânico esquecido no armário durante uma onda de calor: vai fermentando, sorrindo amarelo, até que alguém resolve abrir a porta… E é a morte do artista.
Enfim, partilho aqui algumas razões que me passaram pelo cérebro, como aquela notificação inútil de “fulano foi promovido a nada de relevante”, na esperança de te arrancar pelo menos uma gargalhada cúmplice ou um suspiro de "finalmente alguém disse isto".
Razão #1: Ba-ju-la-ção
Ato ou efeito de bajular; elogios exagerados e falsos, geralmente com o fim de obter algo em troca; lisonja interesseira; bajulice
- Infopédia, Dicionários Porto Editora
Vive-se num palco digital onde abundam artistas do autoelogio, sempre à espera que uma salva de palmas (ou likes) lhes cure a alma e lhes renove o contrato com a autoestima. Tudo bem, admito: há quem precise mesmo dessa dose diária de validação social para continuar a existir sem colapsar emocionalmente. Depois há a tribo dos iluminados — os que transformam a autovalidação numa arma de destruição emocional massiva, apontada a quem eles acham que não está à sua altura. Ipsis verbis, praticamente toda a humanidade.
É um misto de complexo de superioridade com sede de sangue. Ou melhor, sede de reações.
Estas publicações têm o dom de sugar qualquer resquício de paciência até à última gota , como se um vampiro emocional nos tivesse adicionado no LinkedIn e começado a partilhar epifanias sobre leadership às 7h da manhã, enquanto defeca serena e inspiradamente no seu trono de porcelana.
Razão #2: Fake News
“Usa-se o termo para descrever informações falsas difundidas sobretudo nas redes sociais”, diz o site da RTP Ensina, qual farol de luz no nevoeiro da ignorância coletiva. E quem melhor do que uma plataforma jornalística para explicar um conceito que os próprios meios de comunicação ajudaram a criar?
Ora bem, caro leitor, é fundamental filtrar o que se lê. Sim, sei que isso exige mais esforço do que fazer scroll com o polegar, mas pensem nisto como um investimento na vossa sanidade mental.
Até porque ainda não é legal prender gente só porque publica patetices, infelizmente.
E como nos avisa o artigo da RTP: há quem espalhe sensacionalismo só para atrair cliques e faturar com publicidade. Quem diria? Mentiras dão lucro!
As fake news viraram um modelo de negócio: plantas o disparate, regas com likes e colhes dinheiro (nada mal, digo-te de passagem).
Mas espera… há mais! Permite-me apresentar uma subespécie digna de estudo: as mentiras comoventes sem escrúpulos. Sim, aquelas pérolas do género: “esta criança vende limonada para salvar o cão que tem três patas e um mestrado por concluir.” Vale tudo! Uma lágrima por clique, um coraçãozinho por engajamento.
É o novo drama industrializado em que, qual S. Francisco de Assis, pegas numa foto (de preferência com um filtro triste), juntas uma legenda pseudo-trágica e voilá! Tens mais um caso de fraude emocional com fins comerciais. E o melhor? Funciona. Porque ainda há quem acredite que o cão de três patas realmente tem licenciatura.
Agora diz-me: gostas de ser enganado com emoção ou preferes a verdade fria e objetiva?
Razão #3: F.O.R.E.X. e Esquemas em Pirâmide
FOREX ou Foreign Exchange Market. Onde é que começo? Talvez seja sensato explicar com alguma seriedade antes de mergulharmos no absurdo:
Forex é o mercado de câmbio, onde se trocam moedas estrangeiras. Nada de ações, só trocas de valor entre divisas — euros por dólares, dólares por criptomoedas, criptomoedas por fé.
Este é um excerto baseado numa explicação mais coerente da Caixa Geral de Depósitos, instituição respeitável e ainda não envolvida em esquemas motivacionais de “liberdade financeira em 30 dias”.
Até aqui, tudo tranquilo.
O problema começa quando a Forex deixa de ser um mercado e passa a ser um culto.
Aquela evolução natural de “troca de moedas” para “troca de ilusões”, quando de repente já estás a assistir a uma reunião via Zoom, marcada para uma terça-feira às quinze horas.
Sim, eu sei, vive-se num grande esquema em pirâmide: por exemplo, as estruturas empresariais — base larga, topo estreito. Chefes em cima, trabalhadores na base. Nada de novo.
O que realmente deveria preocupar é quando se começa a vender esse modelo como se fosse o paraíso em Power Point: “entra com 250€ e um sonho” e, anos depois, estás a tentar recrutar o teu primo para não fechares o mês no vermelho.
Tudo embrulhado com palavras mágicas como liberdade, empreendedorismo e multinacional.
Razão #4: Karen, sinceramente, precisamos mesmo de saber que és mãe, tens três cães e ainda fazes meal prep às 6 da manhã?
Karen, minha querida… dormes? Sinceramente, estás bem? Manda mensagem se precisares de ajuda.
Não tenho muito mais a dizer sobre isto. Acho que percebeste. Vivem-se tempos em que as redes se tornaram em confessionários públicos e há quem insista em provar que tem a vida “sob controlo” enquanto grita por dentro. Há sempre uma Karen que publica um testamento sobre produtividade extrema, amor maternal, passeios com cães, reuniões no Zoom e ainda tem tempo para correr 10 km antes do pequeno-almoço.
Tudo isto com um valente sorriso na cara e uma caneca que diz “You Got This”.
Spoiler: ninguém got this.
Às vezes, tudo o que estas publicações pedem é um abraço — ou uma boa terapia. Fica aqui o meu XoXo.
O Lado Bom do LinkedIn
Felizmente, nem tudo é um pântano digital povoado por vendedores de sonhos e frases motivacionais recicladas.
Aqui ficam alguns dados animadores de 2023 — porque, sim, também sei ser razoável (às vezes):
O LinkedIn atingiu uns respeitáveis 930 milhões de utilizadores espalhados por 200 países;
134,5 milhões desses utilizadores eram ativos diariamente, alguns a trabalhar, outros apenas a partilhar frases de Elon Musk;
O setor do marketing viveu um boost digno de caso de estudo;
E cerca de 79% dos recrutadores usaram a plataforma para procurar candidatos — ou para espreitar o perfil de um ex-colega e pensar: “Mas este agora é Head of Happiness?”
Além disso, é justo dizer que o LinkedIn oferece uma panóplia de cursos em áreas muito úteis, acessíveis a qualquer um com tempo, vontade e uma boa ligação à internet.
E não te esqueças que ainda promove a interação entre empresas e colaboradores, o que pode ser... positivo, ou um pesadelo, dependendo da empresa.
Portanto, vá… talvez o LinkedIn não seja totalmente mau. É só 70% insuportável, 20% suportável, e 10% surpreendentemente útil — o que, na internet, é quase um milagre.
Notas Finais
Espero que esta crónica tenha provocado algum pensamento e, idealmente, um ligeiro desconforto existencial. Porque pensar dá trabalho, mas aceitar tudo o que nos atiram à cara dá prejuízo a longo prazo.
Hoje foi o LinkedIn a vítima, mas amanhã pode ser o Instagram, o Facebook, ou qualquer outra plataforma onde a realidade se apresenta com um filtro embaraçoso.
Ah, e já agora: mantenham-se hidratados, sobretudo emocionalmente. Nem tudo se resolve com um webinar e uma frase do Simon Sinek.



