O Erro de Ser Diferente
Uma Crónica dos Tempos Modernos
Introdução
Não sei quando foi que começámos a vestir-nos todos da mesma forma. Sei apenas que, algures entre um reel e um passeio distraído pela cidade, isso deixou de me parecer coincidência.
O Erro de Ser Diferente
Há uns tempos, durante a habitual e frenética rotina de reels pós-almoço, deparei-me com um vídeo de uma jovem americana que expunha, a olho nu, as cópias ambulantes em que nos tornámos. O registo, com apenas alguns segundos, dizia tudo: “tenho saudades do tempo em que nos expressávamos pela moda”. A frase era acompanhada por um grupo de adolescentes vestidas com uma espécie de fato de treino branco e as inevitáveis UGG nos seus pézinhos — quentes, confortáveis e absolutamente iguais.
Confesso que esse reel, a partir do momento em que o vi, conquistou um lugar cativo nos confins do meu subconsciente. Ontem, ao vaguear pelas ruas de Aveiro, a imagem voltou a projetar-se no meu cinema privativo do primeiro andar. Sobretudos compridos e pretos. Calças de ganga rotas na bainha. Botins de salto alto pretos. Camisolas de lã em variações tímidas de preto, branco ou cinzento.
Será isto uma cena descartada do Matrix?
Vestimo-nos de forma igual, pensamos de forma igual — e há quem chame a isto escolha. Chamamos liberdade à possibilidade de optar entre três cores idênticas. Chamamos identidade a um algoritmo bem treinado.
E enquanto repetimos que somos únicos, vestimo-nos como se a originalidade tivesse saído de moda. Ou pior: como se fosse um erro.
Digo isto sabendo que não estou imune. Também escolhi o preto num dia em que podia ter arriscado no vermelho. Também já confundi conforto com identidade. Talvez o problema não esteja na roupa, mas na facilidade com que desistimos de nos interrogar — de nos expormos — de dizer, sem garantias, “é isto que sou”.
Recordo-me de quando a roupa era uma declaração imperfeita. Não havia algoritmos a sugerir tendências, apenas espelhos a devolver dúvidas. Talvez não fosse liberdade. Mas era atenção.
Volto ao cinema. Encerro-o. Continuo a andar. As ruas de Aveiro permanecem iguais, ordenadas, previsíveis. Penso que talvez a saudade daquela jovem americana não seja pela moda — mas por um tempo em que ser diferente ainda não parecia um erro a justificar.
Notas Finais
Fico a pensar nisto sempre que volto a escolher o preto. Talvez a questão não seja o que vestimos, mas o que evitamos arriscar.
E tu, quando foi a última vez que te vestiste (ou viveste) sem pedir licença?



